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Pense Nisto:

“A vida má não causa grande dano a não ser a si mesma, mas o ensinamento errado é o maior mal neste mundo, porque leva multidões de almas ao inferno. Não estou preocupado se és bom ou mau, mas eu atacarei teu ensinamento venenoso e mentiroso que contradiz a palavra de Deus.”

Martinho Lutero!

terça-feira, setembro 11, 2012

AS TENTAÇÕES E PROVOCAÇÕES DE JESUS: Mateus 4.1-11

Já dissemos que Marcos não traz com tantos detalhes a narrativa das tentações de Jesus no deserto. Essa história está presente em Mateus e Lucas (4.1-13), pelo que os estudiosos acreditam que ela tenha sido produzida a partir da chamada Fonte Q. Em nosso comentário dessa narrativa, vamos recorrer a um instrumental específico da Semiótica Discursiva, que identificou a existência de quatro tipos de manipulações, dentre os quais está a tentação. Empregaremos este recurso aqui para demonstrar que as investidas do Diabo não são todas do mesmo tipo, e para entender as razões pelas quais Jesus pôde resistir a elas.
A Semiótica Discursiva se ocupa da narratividade dos textos, e da maneira como um sujeito que pode ser chamado de destinador, manipula outro sujeito para que faça o que ele deseja. A primeira maneira de manipular alguém seria através da “tentação”. Na tentação, o manipulador tenta convencer o destinatário a fazer algo por meio de uma espécie de suborno, pela oferta de valores que este destinatário deseja. Assim, para que a manipulação seja eficaz, é preciso que a oferta seja interessante, desejável. O sujeito é levado a fazer o que o outro deseja, ou a crer no manipulador, para que venha a adquirir o valor oferecido. A tentação, portanto, é ineficaz quando a oferta não é tão desejável ao sujeito que está sendo manipulado. A segunda forma de manipulação é a chamada “intimidação”. Ao contrário da primeira, em vez de oferecer valores interessantes, na intimidação o manipulador ameaça retirar do seu destinatário algum(s) valor(es) que ele possui, ou acrescentá-lo valores que ele não deseja. Uma típica intimidação religiosa é a ameaça do inferno, que pode ser compreendida como a ameaça de se perder a paz, a saúde, a vida, a família etc, dependendo do contexto. O religioso assim é induzido a praticar atos que talvez não desejasse, por medo de sofrer tais consequências.
A terceira forma de manipulação é a “sedução”. Agora já não se trata de promessas e ameaças, mas de exaltações sinceras ou não, que o manipulador faz em relação às características do destinatário. O sedutor é aquele que tenta convencer o outro elogiando-o, notando ou até destacando com exagero as suas virtudes; esse ato aparentemente benévolo, indiretamente leva o destinatário a agir para confirmar a imagem que o outro fez dele. Enfim, também pode-se manipular alguém por meio da “provocação”. Neste caso, em vez de exaltar as características do outro, o manipular deprecia-as, e da mesma forma o destinatário se sente forçado a agir, desta vez para alterar a ideia negativa que o outro faz dele.
Voltando à narrativa de Mateus 4.1-11, Jesus é levado ao deserto pelo próprio espírito e jejua lá por quarenta dias. Tanto o numeral “quarenta” quanto o código topográfico “deserto” são heranças da tradição religiosa judaica, e remetem o leitor ou ouvinte desta nova narrativa às história de Moisés e ao Êxodo, quando este libertador tirou os israelitas da escravidão no Egito e os fez peregrinar por quarenta anos no deserto até que tomassem posse de sua própria terra em Canaã. O cenário evocado para as tentações de Jesus é o de uma nova libertação, de um período de provação que conduzirá o sujeito que for aprovado à vitória. Neste cenário, Jesus está provando sua aptidão, passando por um teste decisivo que lhe capacitará para a missão.
No versículo 3 temos a primeira investida do Diabo. Geralmente nos lembramos que ele desafia Jesus a transformar pedras em pães para matar sua fome. Isso seria uma tentação, pois está-se oferecendo a Jesus algo que ele supostamente desejava durante seu período de jejum. Todavia, os pães não são valores tão desejáveis no ethos religioso do Movimento de Jesus, pois sabemos que eles consideravam a fartura um valor negativo. Os seguidores de Jesus deviam aceitar a pobreza voluntária (Mt 19.16-22) e se contentar com o suprimento de Deus (Mt 6.25-34). Porém, esta tentação não é o ponto mais relevante. Antes de oferecer pães, o Diabo desafia Jesus por provocação, dizendo: “Se és o filho de Deus...”. Lembremos que Deus mesmo havia dito que ele era o filho de Deus em 3.17. O Diabo questiona a sanção positiva dada por Deus, desprestigia o status de Jesus, desafia sua identidade. Por isso dizemos que aqui não temos uma tentação, e sim uma provocação. Mais do que matar a fome, Jesus poderia transformar pedras em pães para provar diante do Diabo que era o filho de Deus. Todavia, Jesus resiste à provocação, e diz que ficaria com a “palavra que sai da boca de Deus” (v. 4).
Algo semelhante acontece depois (v. 5-7). O Diabo da visão apocalíptica outra vez desafia a identidade messiânica de Jesus levando-o para o pináculo do Templo e desafiando-o a se jogar de lá para que os anjos o servissem. Outra vez, temos uma provocação, que tenta manipular Jesus desafiando seu status. Se Jesus se deixasse manipular, se atiraria para que fosse servido por anjos dando provas de sua identidade messiânica, ou seja, agiria para confirmar a imagem que o Diabo estava questionando. Novamente Jesus demonstra que não precisa confirmar sua imagem, pois isso seria duvidar da voz divina. Jesus não é manipulado porque crê na palavra de Deus sobre sua identidade, e também porque não procura ser servido, não faz questão de ser honrado. Novamente, os valores ofertados não interessam, não manipulam, pois Jesus estava no mundo para servir e não para ser servido (Mt 20.28).
Finalmente, a terceira investida do Diabo é realmente uma tentação (v. 8-10). Dessa vez ele oferece a Jesus todos os reinos da terra (os quais lhe pertencem na perspectiva mateana) se ele se prostrasse e o adorasse. O Diabo se faz neste ponto um opositor de Deus, pois quer tomar para si o “servo” que Deus há havia recrutado. Para isso ele oferece poder político, e consequentemente, riqueza. A oferta, no entanto, é desinteressante. Jesus não poderia ser tentado por tais coisas, pois como vimos, segundo seu quadro de valores a pobreza é melhor que a riqueza, assim como o serviço é melhor que o senhorio. Em resposta (v. 10), Jesus mostra que o que mais o incomodou foi a ideia de deixar de servir a Deus para servir ao Diabo, e cita um mandamento do Antigo Testamento (Dt 6.13).
O que vimos é que em nenhum momento Jesus parece ameaçado pela fartura de pães, pela honra de ser servido, ou pelo poder político. Tais tentações são enfatizadas pelos leitores de hoje porque estes valores são positivos (eufóricos) segundo seus próprios quadros de valores. Mas o ethos de Jesus é oposto, e vê honra, riqueza e fartura como valores negativos (disfóricos). Se fossem apenas essas as ofertas, as tentações do Diabo seriam superadas sem dificuldades por Jesus. Então, vemos que as verdadeiras ameaças foram outras; o Diabo atacou a fé de Jesus, e este teve que se apoiar na palavra dita por Deus em 3.17 para continuar acreditando que ele era o filho de Deus, o Messias. Assim, ao adotarmos a classificação da Semiótica Discursiva, chegamos à conclusão de que não temos somente “tentações”, mas principalmente provocações, as quais foram superadas pela fé de Jesus na palavra de Deus, e pela segurança que ele demonstra em relação a sua identidade.
O versículo 11 sanciona positivamente e pragmaticamente Jesus, o recompensa por sua grande vitória dizendo que o Diabo o deixou e que anjos o serviram. Não foi necessário provar nada, Jesus estava seguro de si, e pronto para sua missão.
Para finalizar, observemos a imagem que no começo usamos para ilustrar essa leitura de Mateus 4.1-11. As tentações do Cristo são retratadas simultaneamente pelo artista, Sandro Botticelli, no final do século XV. Jesus e o Diabo aparecem juntos em três lugares da imagem, nos cantos superiores e no centro. Cada “tentação” ou “provocação” está aí retratada, e depois, à esquerda e um pouco mais abaixo, temos o final tranquilizador da narrativa, com Jesus e os anjos. Vemos como numa só imagem o artista retratou todas as cenas, fazendo com que tenhamos uma confusão cronológica proposital, ainda que a disposição delas na imagem induza-nos a uma certa sequencialidade de leitura. Vale a pena observar também, que Jesus, o Diabo e os anjos, personagens do texto bíblico que dão nome ao quadro, aparecem em segundo plano no ponto de vista proposto pelo autor, pois a maior parte da imagem se dedica a apresentar pessoas em trajes medievais envolvidos em suas atividades. A clareza com esses são apresentados é maior, são personagens mais “redondos”, mais complexos, e parece que eles seguem em suas próprias rotinas (também religiosas) sem sequer se dar conta do que acontece acima de suas cabeças. É no alto, e num plano não tão visível, que o destino da humanidade está sendo decidido, e para essa ambiguidade que o autor quer nos chamar a atenção, nos dando o privilégio de visualizar quão paradoxal é a vida humana.

Um comentário:

  1. Olá Altair, fiquei muito feliz por ter compartilhado o texto do meu blog. Mas o último parágrafo comenta o quadro que incluí para ilustrar a postagem. Assim, para que faça sentido, sugiro que poste o mesmo quadro, ou que exclua o último parágrafo.

    Obrigado mais uma vez.

    Anderson.

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Curiosidades Bíblicas:

As Bíblias mais antigas não eram divididas em capítulos e versículos. Essas divisões foram feitas para facilitar a tarefa de citar as Escrituras. Stephen Langton, professor da Universidade de Paris, mais tarde arcebispo da Cantuária, dividiu a Bíblia em capítulos em 1227. Robert Stephanus, impressor parisiense, acrescentou a divisão em versículos em 1551 e em 1555. Felizmente, estudiosos judeus, desde aquela época, adotaram essa divisão de capítulos e versículos para o Antigo Testamento.

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