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Martinho Lutero!

quarta-feira, outubro 12, 2011

A Ceia do Senhor para Crianças - Um testemunho da História

Pr. José Carlos de Souza

Os textos referentes à participação das crianças na Ceia do Senhor são escassos. Nada encontramos no Novo Testamento. Contudo, há testemunhos de que essa prática se tornou corrente na Igreja Antiga. O próprio Lutero o afirma categoricamente. Rechaçando a restrição do cálice aos leigos na liturgia católica, o reformador reportava-se ao escrito de Cipriano ( + 258), bispo de Catargo em meados do 3º século, a respeito dos que haviam abandonado a fé diante das perseguições, para destacar o que, então, era aceito sem contestação: "naquela Igreja era costume dar a muitos leigos e também às crianças ambas as espécies e até o corpo do Senhor na mão, como ensina com muitos exemplos" (1). Calvino também o testifica: Foi isto, na verdade, freqüentemente praticado na Igreja Antiga, como se constata de Cipriano e Agostinho(...)". Porém, acrescenta uma ressalva: "(...)mas esse costume se fez obsoleto" (2), ou seja, caiu em desuso, ao menos, no Ocidente. Quando isto ocorreu?

W. Walker, em sua História da Igreja Cristã, relaciona esse fato ao desenvolvimento da piedade medieval em torno da Eucaristia. O receio de profanar o sacramento pelo mau uso do vinho levou, já no século VII, a adesão do costume grego de molhar o pão no vinho e, por último, no século XII, a concessão do cálice apenas aos clérigos. Pressupondo-se que o corpo e o sangue de Cristo estavam plenamente presentes em cada um dos elementos, a comunhão dos leigos era realizada apenas com o pão. Nessa direção, abandona-se, nos séculos XII e XIII, "a prática da comunhão infantil a qual havia sido universal e que permanece até o presente na Igreja Grega"(3).

Descrevendo a vida litúrgica no mesmo período, o historiador católico Jean Comby expõe tese semelhante: "Já não se dá mais ao recém-nascido a comunhão sob a forma de vinho, pois esse rito desapareceu da missa, no Ocidente, no que se refere aos fiéis" (4).

Vale a pena ressaltar que Tomás de Aquino, que tanto contribuiu para definir teologicamente a prática sacramental católica, estabelece, no entanto, um nexo entre o batismo e a comunhão eucarística. Comenta Walter M. Goeder: "(...)Santo Tomás afirma que, pelo fato de as crianças serem batizadas, estão destinadas, por vontade da Igreja, a receber a eucaristia. A Igreja que crê em seu lugar no batismo, por elas deseja a eucaristia (S. Th. III, q.73, a3)" (5). O batismo tende para a participação eucarística, entretanto, segundo o uso católico, tal vínculo somente se efetiva a partir da conirmação ou crisma.

Calvino representa bem a postura que foi assumida pelo "protestantismo magisterial" (a exceção é de G. Williams). Ele não se mostra convencido de que a aceitação do batismo infantil implica inevitavelmente na admissão das crianças à Ceia do Senhor. Segundo o reformador francês, é preciso considerar a natureza e o caráter específico de cada sacramento, conforme explica: o batismo é "um como que ingresso e uma dir-se-á iniciação à Igreja, mercê da qual somos contados no povo de Deus: sinal de nossa regeneração espiritual, através da qual somos nascidos de novo para filhos de Deus, quando, em contrapartida, haja a Ceia sido atribuída aos mais crescidinhos, que, ultrapassada a infância mais tenra, já estejam em condições de suportar alimento sólido..." (6). Se nenhuma seleção de idade é feita no qua concerne ao batismo, o mesmo não ocorre com a Santa Ceia, a qual se destina a quaisquer pessoas indiscriminadamente, senão somente àquelas que são capazes de discernir o corpo e o sangue de Cristo, examinando a própria consciência e ponderando sobre o sentido e a eficácia sacramentais (7). A participação eucarística, enfim, supõe, no mínimo, maturidade suficiente pra indagar acerca de seu significado (cf. Ex 12:26). Idêntica preocupação parece ter animado Lutero a ponto dele introduzir a catequese e, posteriormente, a confirmação, como meios adequados para assegurar participação consciente, nutrida pela fé em Cristo, na comunhão eucarística (8).É preciso indagar, com toda a honestidade, se aqueles que chegam à "idade da razão"compreendem, de fato, todas as implicações da participação na Ceia do Senhor. Também não se pode escamotear a pergunta se as crianças possuem, ou não, alguma forma de discernimento. O questionamento da posição dos reformadores se torna mais intensa na medida em que experiência pastoral, comum em muitas comunidades, tem demonstrado que, ao ser acolhida na mesa do Senhor, a criança assimila existencialmente o significado da comunhão, ainda que não saiba expressa-lo verbalmente.

E Wesley, como ele enfrentou essa questão? A problemática é colocada por Colin Williams nos seguintes termos: de acordo com o fundador do metodismo, "(...)a ceia do Senhor é um poderoso meio de graça não só no sentido de comunicar a graça santificadora para a nutrição do convertido, mas também para conceder graça preveniente e justificadora, conduzindo à aceitação consciente de Cristo. Por essa razão o batismo é a qualificação para a admissão, e a Ceia não deveria ser reservada para os que alcançaram a maturidade do novo nascimento mediante a conversão" (9).

Nessa linha de raciocínio, observa Williams, Wesley estava disposto a admitir crianças batizadas na mesa eucarística, sempre que fossem instruídas quanto ao significado dessa participação. Um exemplo disso é o registro feito por Wesley, no dia 29 de maio de 1737, em seu Journal: "Sendo domingo de Pentecostes, quatro de nossos estudantes, depois de terem sido instruídos diariamente por várias semanas, foram, por seu sincero e reiterado desejo, admitidos à mesa do Senhor. Eu acredito que o seu zelo tem movido muitos a se lembrar do seu Criador nos dias de sua mocidade, e a redimir o tempo, mesmo no meio de uma geração má e adúltera. De fato, por essa época, nós observamos o Espírito de Deus a mover-se nas mentes de muitas crianças. Elas começaram a ouvir mais cuidadosamente as coisas que eram faladas, tanto no lar como na igreja, e uma seriedade notável apareceu em todo seu comportamento e conversação..."(10).

Em outro registro do Journal, este um ano antes de sua morte acontecida em 21 de fevereiro de 1790, Wesley revela que a sua preocupação com as crianças não era entusiasmo passageiro dos anos de sua mocidade: "Eu preguei às crianças na Nova Capela [New Chapel]; e eu creio que não foi em vão" (11). Certamente tais observações nos levam a refletir sobre o lugar das crianças na vida e na missão da Igreja, não apenas como objetos da ação pastoral da comunidade, mas como agentes eclesiais ativos. A participação das crianças na Ceia do Senhor deve ser situada nessa dimensão!
Os termos publicados no conhecido documento do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) sobre esta questão são contundentes: "Se o batismo, como incorporação no Corpo de Cristo tende, pela sua própria natureza, à comunhão eucarística no corpo e no sangue de Cristo, levanta-se a questão de saber por que um rito separado pode ser acrescentado entre batismo e admissão à comunhão. As Igrejas que batizam crianças, mas recusam-lhes a comunhão na eucaristia antes de um tal rito, deveriam interrogar-se se terão ou não avaliado e aceito plenamente as conseqüências do batismo" (12).

Sem dúvida alguma, a interrogação acima indicada alcança maior gravidade se levarmos em conta o precedente wesleyano e o colocarmos em hesitação e mesmo com a oposição relativas à participação das crianças na Ceia do Senhor ainda nutridas em muitos setores de nossa Igreja a despeito das orientações do Colégio Episcopal (13). Que as lições da história nos ajudem a reavaliar as nossas ações na vida e na missão da Igreja, dando prioridade a quem o Senhor realmente exaltou como herdeiras do Reino.


NOTAS

1 - LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja in Obras Selecionadas. São Leopoldo, Sinodal-Concórdia, 1989, v. II, p. 353. De fato a observação de Lutero é correta, como se pode constatar facilmente recorrendo ao próprio tratado do bispo cartaginês, De Lapsis (Dos apóstatas) - cf. capítulos 9 e 25, publicado em Obras de San Cipriano, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos?La Editorial Católica, 1964, p. 176, 188-9.

2 - CALVINO, João - As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1989, v. IV, p. 332 (IRC, IV, 16, 30).

3 - WALKER, W. op. cit. v.I, p. 348.

4 - Para Ler a História da Igreja, Tomo I: Ds Origens ao Século XV, São Paulo, Loyola, 1993, p. 145.

5 - Teologia do Batismo, São Paulo, Paulinas, 1987, p. 75.

6 - IRC, IV, 16, 30, p. 332 na edição citada.

7 - Ibidem; cf. 1 Co 11.28s.

8 - Cf. P. Dr. Lothar C. Hoch, "Santa Ceia Para Crianças: Sim ou Não" in A Cruz no Sul - Jornal da Igreja Evangélica Luterana de São Paulo, Ano XLVII, nº 2, Abr/1995, p. 2.

9 - John Wesley's Theology Today. New York, Abingdon Press, 1960. O grifo é do autor.

10 - The Works of John Wesley. London, Wesleyan-Methodist Book-Room, 1831, v. I, p. 50.

11 - Ibidem, v. IV, p. 736.

12 - Batismo, Eucaristia e Ministério. Rio de Janeiro, CONIC/CEDI, 1983, p. 21.

13 - Cf. Carta Pastoral do Colégio Episcopal sobre a Ceia do Senhor. São Paulo, Imprensa Metodista, 1996, p. 23-25.



Fonte: Igreja Metodista 1ª Região Eclesáistica

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As Bíblias mais antigas não eram divididas em capítulos e versículos. Essas divisões foram feitas para facilitar a tarefa de citar as Escrituras. Stephen Langton, professor da Universidade de Paris, mais tarde arcebispo da Cantuária, dividiu a Bíblia em capítulos em 1227. Robert Stephanus, impressor parisiense, acrescentou a divisão em versículos em 1551 e em 1555. Felizmente, estudiosos judeus, desde aquela época, adotaram essa divisão de capítulos e versículos para o Antigo Testamento.

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